Como é difícil se entender hoje em dia.
Como se torna complicado viver com plenitude. Encontrar o seu próprio objetivo.
Nascemos e já tinham decidido o nosso ofício: tu deves sobreviver.
E assim fizemos.
E quando essa fase passou, perguntamos: e agora?
Nos disseram: tu deves ser comportado.
E fomos. E destruímos apenas metade da decoração das nossas casas.
Que, de certa forma, é uma estatística realizada por anjos.
E depois de sermos tão angelicais, perguntamos: e agora?
Novamente, mais uma tarefa: tu deves estudar.
E estudamos. Mais do que gostaríamos. Menos do que deveríamos.
E depois que tivemos contínuos anos suportando os livros, perguntamos: e agora?
E lá veio mais uma: agora tu deves trabalhar.
E trabalhamos. E odiamos. Odiamos aquele lugar. Odiamos os nossos superiores. Odiamos aqueles padrões. Mas suportamos.
E quando conseguimos um dinheiro, fizemos o questionamento de sempre: e agora?
E nos disseram: agora tu vais gastar. E, depois que acabar teu dinheiro, tu deves trabalhar mais e mais.
E assim conseguimos smartphones mais "smart" que nós mesmos.
Mas chegou uma hora em que o ardente sentimento bateu à nossa porta.
E perguntamos: e agora?
O mundo, sempre feliz em nos dar trabalho, esboçou um sorriso cheio de malícia e disse:
- Agora tu vais encontrar alguém que te entenda mais do que tu a ti mesmo.
COMO ASSIM?! QUE MERDA É ESSA?!
E aí passamos o tempo todo tentando achar alguém. Alguém que seja inteligente, mas humilde. Que seja rico, mas simples. Que seja malandro, mas fiel. Que sempre nos coloque como prioridade, mas que tenha vaidade. Que fale três línguas, mas que abra mão do mundo pra ficar contigo. Que ande bem vestido, mas jamais melhor do que tu andas. Que nos escute, mas nunca perca a paciência. Que goste de sair, mas que ame ficar em casa.
Caos da nossa geração.
Fadados à solidão. Por quê? Fizemos tudo certo!
No entanto, nunca entendemos a mensagem do mundo.
A natureza não criou pessoas tão perfeitas como os nossos smartphones.
Ela resolveu nos presentear com a consciência. Louco, não é?
E passamos nos perguntando o porquê dessa dádiva e o porquê de não existir gente perfeita.
E não vemos que a perfeição reside na imperfeição. Naquela gaguejada nervosa. Naquela timidez cheia de bondade. Naquela mão que treme ao segurar pela primeira vez a mão da pessoa amada.
E vivemos perguntando aos outros, mas nunca a si mesmo.
Portanto, te pergunto:
- E agora?
G.R.R.
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