Hoje, quero ser um drogado.
Um marginal. Um inconsequente.
Quero a dor lancinante da injeção da droga.
Quero coelhos com asas, fadas que explodem.
Hoje, quero ser tudo que julguei errado.
Quero conhecer o mundo dos esquecidos pelo mundo.
Um novo mundo.
O das putas baratas.
O dos novos-mendigos.
O dos pacientes terminais.
Tenho dentro de mim uma ânsia de autodestruição.
De conhecer a porta dos fundos da alma.
De ver além do fundo do poço.
Deve ter sido causado por esse vício em sonhar ser alguém melhor.
E não conseguir.
Maldito sofrimento. Maldita preguiça. Fizeste o pior de ti em mim.
Queria ser uma reencarnação do Mozart.
Uma revisão da J.K. Rowling.
Uma cópia do Picasso.
Mas sou Guilherme.
Apenas Guilherme.
O garoto com medo de viver com intensidade.
O garoto que foi sincero nos seus discursos.
O garoto que foi julgado por ter sido assim.
O que ninguém leva a sério por ver humor em tudo.
O que ficou traumatizado com a rejeição feminina.
O que não se acha o melhor em nada.
Aquele que todo mundo quer pra ouvir.
Aquele amigo bonzinho e "inteligente".
Aquele que te escuta e fala tudo que tu quer escutar. Que vai ficar tudo bem. Que tu vai ser a melhor pessoa do mundo.
Mesmo que tu tenha um coração mais negro do que carvão.
Desgraçado que odeia que critiquem seus gostos.
Teimoso que não desiste das pessoas.
Inocente que inveja os mentirosos.
Homem que joga alto em expectativas e perde sempre.
Homem que acha que a mulher perfeita vai cair do céu.
Homem que crucifica as pessoas por erros desprezíveis.
Um viciado em ouvir a mesma música. Mil vezes. Até não suportar mais.
Um viciado em amar a mesma mulher. Por uma noite só.
E amar mil vezes mais a partir do momento em que a perde.
Um viciado em beber nostalgias. Que no dia da ressaca promete parar pra sempre.
Amante platônico.
Errante no mundo moderno.
Protetor da emoção alheia.
Masoquista do próprio coração.